Coronavírus e a indústria da moda
Na Mandala

Covid-19: impactos e consequências na indústria da moda

O assunto Coronavírus é um dos tópicos mais discutidos na atualidade: desde o surto da Gripe Espanhola, no início do século passado, não se via uma pandemia se alastrar com tanta velocidade como a Covid-19. Mesmo estando em pauta desde o final de 2019, a disseminação do vírus tomou proporções globais em fevereiro de 2020, e o mundo literalmente parou, com grandes impactos sociais e econômicos.

Assim como muitas empresas, a Mandala Clothing teve que se adaptar a uma  nova realidade  criando um novo protocolo de segurança a fim de conter a disseminação da Covid-19, sem deixar as atividades paradas por muito tempo. Filipe Longo, Guilherme Tieppo e Carolina Andraus, sócios da Mandala, contam mais sobre as medidas, os impactos e previsões dessa crise, que ainda é muito incerta.

Ainda que estivesse em pauta desde o final do ano passado, só houve uma mobilização maior em março de 2020. Em que momento vocês perceberam que a situação era mais séria do que aparentava?

Com a situação grave nos países europeus já em fevereiro, percebemos que era algo bem preocupante. No entanto, por um lado esperávamos que, pelo Brasil ser um dos últimos países a ser atingido, conseguiríamos passar sem muitos problemas.

Infelizmente, no começo de março já deu para notar que a situação seria bem grave por aqui também. Tudo aconteceu muito rápido e exigiu decisões imediatas.

Quais foram as primeiras medidas adotadas pela Mandala no início da quarentena? 

Primeiramente suspendemos a operação por 3 semanas com toda a equipe trabalhando em home office. Neste período, montamos as estratégias gerais da empresa, demos andamento a uma nova plataforma interna e nos organizamos para voltar a operar.

Depois disso, voltamos a com a equipe extremamente reduzida. Somente a equipe de operação voltou ao escritório e começou a trabalhar em dias alternados.

Para a segurança dos colaboradores e clientes, foram adotadas as seguintes medidas de segurança: funcionários usam luvas e máscaras no transporte público, trocam de roupa e sapatos na chegada ao escritório, higienizam as mãos de hora em hora e usam máscaras durante todo o dia. 

Para as malinhas, adotamos os seguintes cuidados: roupas são passadas em alta temperatura (>125 graus) duas vezes antes de serem embaladas. As peças são embaladas em plásticos e seladas com seladora. São enviados saches de álcool em gel dentro da mala para que a cliente higienize as mãos ao receber. Dentro da mala vai um plástico para que a cliente coloque as roupas que não irá comprar. A mala vai envolta em um plástico e este também é fechado com a seladora. Nossos portadores estão usando máscara e luvas para a entrega, assim como higienizando a mala com álcool na entrega.

Na chegada ao escritório, mala e peças são higienizadas e ficam em quarentena por 48hs para só depois retornar ao estoque.

Vocês chegaram a conversar com profissionais da saúde? Quais foram as instruções recebidas em um primeiro momento?

Conversamos bastante com profissionais de saúde e buscamos nos informar através das fontes oficiais. Ficou claro para nós que se não houvesse contato entre as pessoas seria impossível que o vírus fosse transmitido. Por isso inicialmente paramos a operação e pedimos a todos que permanecessem em casa. Essa quarentena inicial durou quase um mês, até retomarmos as operações com todos os procedimentos e rodízio de funcionários. Valorizamos muito nossos colaboradores e, nesse momento complicado, quisemos manter todos recebendo algum pagamento, mesmo que reduzido. O pessoal também compreendeu essa necessidade e conseguimos manter todo mundo, e pretendemos continuar dessa forma.

Além disso, nos foi explicado que o vírus não “passa” através da pele, é necessário coçar o nariz ou olho, ou ter uma ferida para que haja contaminação. Por isso a necessidade tão clara do uso de máscaras.

Contudo, a falta de informação científica sobre o vírus foi um problema. Foi muito difícil definir com certeza alguns pontos cruciais para nós, como por exemplo, quanto tempo o vírus permanece nos tecidos. Decidimos, portanto, ser o mais cautelosos possível com nossos procedimentos de segurança, para minimizar ao máximo a chance de contaminação dos nossos colaboradores e clientes.

Existe uma percepção comum de que, diferentemente de outras áreas, como alimentação e indústria farmacêutica, a moda é colocada em segundo plano em questão de prioridades. Isso acontece de fato? Qual seria uma explicação?

Alimentação e indústria farmacêutica, são serviços essenciais que seguiram funcionando sem nenhuma interrupção em todos os lugares.O gasto com moda é mais fácil de cortar, e por isso foi um dos setores mais impactados no primeiro momento. No entanto, além das necessidades de novas roupas conforme as estações do ano vão mudando, a moda tem muita relação com a autoestima das pessoas, o que é muito relevante nesse momento de desconforto psicológico com toda a situação. Não é bom para o nosso dia a dia ficar de pijamas, mas ao mesmo tempo se sentir confortável é fundamental Além disso, uma pesquisa publicada na revista acadêmica Social Psychological and Personal Sciences mostrou que se vestir da maneira como se vestia antes pode auxiliar no rendimento do trabalho em casa.

Do ponto de vista de empreendedorismo, como fazer uma marca se reinventar em meio ao caos? 

No momento que vivemos – fora do contexto Coronavírus – , no qual as coisas mudam muito rápido, as marcas precisam se reinventar o tempo todo. A inovação deve fazer parte do seu dia a dia e estar enraizada nas suas culturas. Isso fica ainda mais claro no cenário atual de startups, com suas metodologias de hipóteses e testes, entendimento das reais necessidades dos clientes e adaptações rápidas. O momento de caos torna-se, portanto, uma oportunidade para refletir sobre a empresa e seu propósito, para rever processos, comunicação e propor novos caminhos. Na Mandala foi um momento ótimo para tirar a cabeça da água e conseguir visualizar com mais clareza para onde queremos nadar.

Foi muito bonito de ver a mobilização inicial das marcas em relação à produção de conteúdo adaptada à nova realidade. Muitas empresas falando de práticas de bem-estar, ressignificação do tempo disponível, boas práticas de home office, etc. Tudo de uma forma bem criativa.

Na Mandala tivemos muitas mudanças também! Mudamos significativamente como as clientes interagem com nosso produto, podendo ter acesso às peças escolhidas por nossas stylists antes de receber efetivamente a malinha. Alteramos nossa produção de conteúdo para oferecer um leque maior de assuntos, como lifestyle e bem-estar, além de dicas de coisas legais para fazer no dia a dia dessa nova realidade.

Um dos pilares da Mandala é a questão de conveniência e economizar tempo. Estamos otimistas que neste processo de ressignificação do tempo, muitas pessoas irão perceber o benefício de não gastar tempo com compra de roupas, para poder se dedicar às coisas que mais amam, muitas recém-descobertas!

Do ponto de vista econômico, existe uma previsão de melhora do cenário atual? Quando isso aconteceria?

Está muito difícil falar em previsões nos dias atuais. Podemos olhar como está sendo a recuperação nos países que foram atingidos antes, mas mesmo assim, em cada lugar é diferente.

Após a queda brusca inicial, já houve uma melhora no geral. A tendência é seguir melhorando, mas não sabemos em qual velocidade. Podemos ainda, infelizmente, ter uma 2ª onda, ou então uma dificuldade econômica maior do que a esperada nos próximos meses, resultado desse momento crítico pelo qual estamos passando. Por isso, é importante estar atento às necessidades dos clientes para conseguir gerar valor, ao mesmo tempo em que a atenção nas finanças deve ser redobrada.

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